terça-feira, 16 de junho de 2009

Trajetórias que se perdem ... e que se reencontram

Semana Acadêmica do Curso de Geografia (IH, UnB) - 15 a 19 Jun. 2009
"Da Realidade ao Pensamento e do Pensamento à Realidade. Produção e Apropriação do Conhecimento Geográfico"
Mesa1: Paradigmas e concepções teórico-metodológicas na produção científica da Geografia contemporânea (dia 15, 09h)
"Tendo a evolução do pensamento geográfico por objeto, um seu caso de estudo pertinente e instigante é o exercício comparativo entre Brasil e França. Sabe-se que a Geografia brasileira, a exemplo de muitas, se desenvolve, germinal e defasadamente, nos moldes clássicos da matriz européia. Contudo, isso não significa que as leituras a propósito de outras modalidades de argumento tenham se dado atada ou similarmente. Bastante ao contrário, numa atenção votada à literatura contextual de uma e outra "escola", pode-se perceber, por exemplo, o quanto uma "Geografia Teorética e Quantitativa" se diferenciou (em termos de causas e desdobramentos, pelo menos) de uma "Géographie Théorique et Quantitative".
Desde nosso pós-doutoramento, vimos estado interessados em ensaiar essa especial comparação, sendo que - num plano ainda mais específico - fazendo-a observando o detalhe das (particulares?) assimilações do argumento sistêmico. E deparados com literatura bastante elucidativa, uma perspectiva curiosa - reveladora, aliás, do quanto os testemunhos narrativos de quem viveu episódios, pode realçar aspectos ainda subvalorizados pelas historiografias - se nota: a impressão pessoal de que teria havido subemprego (e subvalorização) de modelos teóricos
(e ocasiões) por parte da comunidade científica.
No que diz respeito à 'GTQ' francesa, verifica-se depoimentos neste sentido. Não se discute, há evidentes heranças atuais do marco teorético-quantitativista: respectivamente, a permanência dos debates de cunho epistemológico (com qual ou quais espécies de linguagem o geógrafo pode/deve explanar sobre seu objeto de interesse?) e a constante atualização da ferramentaria técnica (hoje, certamente mais refinada que os instrumental posto à disposição entre os anos setenta e oitenta). Porém, certos geógrafos são levados a refletir: a recorrência dos debates conceituais, organizados nas salas de discussão temática dos congressos e simpósios, não pode bem ilustrar uma já exacerbada comprovação de impossibilidade de consenso?
Georges Bertrand, a começar do final dos anos sessenta, presenteou o ocidente com uma versão algo antropocêntrica das paisagens 'naturais'. Decerto que seu geossistema meso ecológico, meso econômico-cultural, adquiriu, desde lá, aperfeiçoamento no aspecto da integralidade dos componentes. A proposta mais contemporânea, da estrutura 'gtp' parece provar isso - isto é, o fato de que os geossistemas talvez se adequem mesmo melhor às dinâmicas do quadro físico ... por mais que, a bem dizer, na sua estrutura, ele conste como um 'g' interpretado pela ótica de quem nele próprio se instala (seja econômica ou culturalmente). Mas atento ao modo como evoluiu, em seu país, o argumento geográfico, Bertrand adverte-nos de um fato tão ou mais importante: a Geografia, deliberadamente, deixou que escapasse da alça de mira o 'natural'. Pouco importando o debate sobre se ainda restaria genuína natureza nos ambientes onde os grupos instalam seus modos de organização, a verdade é que - por despeito ou descuido - os geógrafos (auto-ufanistas) foram virando, aos poucos, as costas para o argumento ecológico. E isso, aparentemente, aponta a bem menor consagração dos trabalhos àquelas dinâmicas efetivas energizadoras dos processos chamados sócio-econômicos.
André Dauphiné, um importante publicitário dos modelos (neo)sistêmicos na Geografia francesa, compartilha a interpretação; tem visão análoga. Enquanto Bertrand se vale da metáfora da chave, precisa no encaixe em uma fechadura por muito tempo obstaculizante (mas que os geógrafos não se atreveram a inserir e girar), Dauphiné expressa o mesmo embaraço com a imagem do trem, que vez outra dá sinal de partir ... sem que os geógrafos nele decidam embarcar. Dauphiné se refere aos nossos desperdícios; ao fato de não prestarmos a devida atenção às ofertas teóricas que a história das ciências vai nos disponibilizando a todos: modelos eloqüentes (com certo teor naturalista, é verdade) para os processos complexos. Bertrand, por sua vez, refere-se ao sacrifício (irracional) da porção mais genuína da matéria geográfica de pesquisa: o próprio quadro natural!
Podemos, quem sabe, agregar ao mote geral constante de uma e outra impressão, também a seguinte: nós os cientistas sociais nos extasiamos, com freqüência, com o novo; o 'novo' em linguagem, por exemplo. E experimentamos muitos insights a partir dele; somos intuitivos, versáteis. Entretanto, parece nos faltar o hábito interessante do 'emprego insistente', digamos assim. Falta-nos, quero dizer, persistir nas linguagens circunstancialmente descobertas (ou tomadas de empréstimo, na maior parte dos casos)! Assim sendo, não parecemos ser pacientes e temperados emocionalmente o suficiente para explorar ao máximo as novas ferramentas; testá-las, afinal, em seu efetivo alcance de aplicação. E isso, de fato, requereria a perseverança que não temos demonstrado possuir.
Uma primeira ocasião por nós desdenhada remonta à época em que se difundiu entre as ciências sociais a teoria sistêmica chamada cibernética - quando (é verdade) o protótipo explicativo ainda tinha de se resignar com um contexto de elementos não-agentes. Mas, enfim, o ideário da sinergia era já uma advertência feliz ... vinda de trabalhos em Biologia e ciências da comunicação. A segunda ocasião é presente; sendo assim, em tese, ainda estaria em tempo de embarcarmos no trem da história. Trata-se das teorias que poderíamos nomear '(neo)sistêmicas', pois que a idéia intrínseca aos modelos é a de descrever processos de cuja manifestação surte a aparência de dinâmicas não-lineares. Logo, passa-se a poder desfrutar de estruturas teóricas bem mais adequadas ao cenário intrincado das organizações espacias: evolução por saltos e elementos de fato agentes.
Fácil de entender, a razão de ser das menores chances de perseverança neste específico caso (da modelagem sistêmica) reside na costumeira resistência, por parte dos geógrafos humanos (falo de seu contingente mais expressivo, em todo caso), em aceitar a aplicabilidade dessas estruturas conceituais que, por meras razões de iniciativa, transmitem a idéia de que seriam especialmente descritivas do mundo natural (desde as dinâmicas quânticas às performances macrobiológicas). Bem, como então desqualificar as fontes desta resistência tão persistente?
Ora, a primeira delas é muito evidente ... tanto quanto triste. A ignorância histórica que muitos daqueles exprimem - mesclada também a uma boa dose de pretensa auto-suficiência - é o que mais parece estorvar os impulsos liberais ao emprego de teorias de concepção alienígena. Uma vez que não tomam conhecimento dos adiantamentos e ganhos gradativos (no plano do método e da linguagem) possíveis de observar tão logo se seja vigilante à história das ciências - e aqui pensamos que a flexão nominal diga-nos muito! -, é previsível que conservem velhos preconceitos ... tais como o de achar que as disciplinas 'exatas' apenas lidam com o paradigma da causalidade determinista. E, se o contrário se desse, seria espontâneo notarem o quanto a Física, por exemplo, está hoje desprendida dos padrões mecanicistas estritos ... o quanto a 'severa' ciência natural (vista realmente, por muitos cientistas sociais, como sendo por demais austera e, por esse exato motivo, inapropriada à complexidade tamanha de seus particulares objetos de estudo - interpretação esta que, é óbvio, revela pura intimidação mal disfarçada) soube absorver nos modelos também o parâmetro do acaso e da chance.
E a segunda resistência, não menos vexatória, está encravada no cacoete emburrecedor de, ao menor sinal de aproximação simpática do argumento desenvolvido por físicos ou matemáticos, logo se disparar a reprimenda de que a atitude indica reducionismo.
Como as resistências se coordenam! Mesmo porque ao fazermos uma leitura atenta da história contemporânea das ciências é fácil perceber que esses cientistas são apenas aqueles que (não cultivando o vício da auto-sabotagem) primeiramente intuíram a formalização teórica da não-linearidade. E por esta via interpretativa, advém hipótese instigante - que deveria incitar o debate mais proveitoso: modernos modelos sistêmicos não são afinal uma representação de algo que se pode visualizar tanto em dinâmicas de sociedade quanto em de natureza? E que, portanto, enxergar redução de umas às outras é outro evitável tropeço?"

LITERATURA CONSULTADA
BERTRAND, G. Chassez le naturel... L'Espace Géographique, Paris, v. 18, n. 2, p. 102-105, avr./juin 1989.
DAUPHINÉ, A. Les théories de la complexité chez les géographes. Paris: Anthropos, 2003. 248p.
PUMAIN, D. Une approche de la complexité en géographie. Géocarrefour, v. 78, n. 1, p. 25-31, 2003.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

[PB34] Conversas sobre o pensamento (2): André Dauphiné, o bom legado naturalista na geografia e um trem que já deu sinal de partir

Geografia (Rio Claro/SP)
[volume 33, número 3, p. 569-579, Set./Dez. 2008]
ENTREVISTA COM UM DOS PERSONAGENS GRANDES RESPONSÁVEIS PELA DIFUSÃO, NA GEOGRAFIA FRANCESA, DAS TEORIAS DO CAOS E DA FRACTALIDADE. SUA NARRATIVA É UM MANIFESTO REPROVADOR DOS PRECONCEITOS EPISTEMOLÓGICOS AINDA PRESENTES NOS CÍRCULOS ACADÊMICOS - O QUE TEM, POR DÉCADAS, OBSTACULIZADO UM CONSENSO EM TORNO DE MODELOS TEÓRICOS MAIS EFICIENTES.
["Opor o quantitativo ao qualitativo é mau. São os dois pontos-extremos do mesmo continuum; todavia, não se opõem. Isso é difícil de fazer entender. Certos geógrafos não alcançam a idéia. Uma das querelas contra a Geografia dita quantitativa é exatamente isso, porque foi escolhido um termo ruim. Teria sido melhor que tivéssemos nos apresentado como geógrafos teoréticos, ou geógrafos-matemáticos. Ou ainda, se quiséssemos ser cruéis com os críticos, 'geógrafos-cientistas'." (DAUPHINÉ apud REIS JÚNIOR, p. 573)]
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